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Pernambuco Empresarial


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Recife,
diminuir aumentar  

Ainda vai levar um tempo


“Faltam investimentos em marketing. Falta propaganda. É necessário mostrar Pernambuco, suas praias, belezas e cultura, e também o setor hospitalar. O paciente internacional busca preços menores e aproveita para fazer turismo. Nós, como temos as duas coisas para oferecer, somos candidatos de alto poder para fornecer o serviço de saúde. Pernambuco está se preparando para um futuro no qual o turismo médico será uma realidade e fonte de divisas para o Estado”, analisa Alberto Ferreira da Costa, provedor do Real Hospital Português, o primeiro do Estado a apostar na adoção de uma gerência de relações internacionais

O turismo de saúde é uma alternativa viável para ampliar o escopo de clientes do polo médico-hospitalar do Recife. Os primeiros passos foram dados, mas os desafios para viabilizar esse caminho não são pequenos.

Ao final de 2008, Pernambuco desfrutava de 11 voos internacionais regulares (sete da American Airlines e quatro da Delta) e, na tentativa de encontrar caminhos para dar sustentabilidade a essa oferta, a Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur) enviou Luciana Fernandes, hoje diretora comercial do órgão, para entender melhor o mercado americano. A executiva voltou de viagem convencida da importância de segmentar o trabalho aqui a partir de produtos que tivessem competitividade para os turistas de lá. Ao analisar as pesquisas produzidas regularmente pela Empetur, ela percebeu que o volume de turistas que chegavam a Pernambuco alegando como motivo para a visita tratamento de saúde era de 7,89%, enquanto os que afirmavam ter como motivação congressos e convenções profissionais somavam 3,72%, quase a metade.

Ao aprofundar sua imersão no quesito saúde, descobriu que o turismo com essa finalidade no mundo era alavancado com pacotes agregados, chamados side trips, que sugerem um plus na viagem além do tratamento em si. Esse algo a mais significava a oferta de resorts para o período de recuperação, passeios culturais e acessibilidade aérea, bem como, claro, valores competitivos. Ao passar uma vista nesse conjunto de atributos, Luciana teve a forte impressão de que Pernambuco poderia se inserir no contexto.

Fernandes procurou então a Amcham para articular o caminho. A câmara, através de sua gerente regional, Paulina Sarubbi, respondeu reativando seu Comitê de Saúde com o propósito inicial e prioritário de discutir o tema. O comitê passou a ser presidido pelo empresário do setor de saúde e diretor executivo da Diagno (o serviço de diagnóstico por imagem do Hospital São Marcos), Alberto Cherpak, que logo se tornou um entusiasta, conhecedor e articulador do assunto no trade recifense. Luciana procurou também a diretora executiva do Recife Convention & Visitors Bureau, Tatiana Menezes, buscando estabelecer um elo com a cadeia produtiva do turismo no Estado.

Em setembro de 2009 a Empetur, a Amcham e o RCVB organizaram conjuntamente uma missão para Los Angeles, em que, além de visitar hospitais que recebiam pacientes internacionais, como o Hospital da Universidade da Califórnia, participaram do Congresso de Turismo Médico e Saúde Global, que contou com 1,5 mil participantes e 200 expositores, num evento promovido pela Medical Tourism Association. No evento não havia a presença de nenhum Estado brasileiro nem da Embratur, apenas a delegação pernambucana, envolvendo 15 pessoas, incluindo Luciana Fernandes e Alberto Cherpak; o provedor do Hospital Português, Alberto Ferreira da Costa; o diretor médico do Hospital Santa Joana, Felipe Lima; o executivo do Memorial São José, Maurício Moura; e Gustavo Araújo, executivo da Unimed Recife.

O evento foi um despertar e deixou claro que o mercado de turismo de saúde existia mundialmente de forma consolidada. Mais que isso. O congresso mostrou que muitos destinos estavam organizados para atraí-lo como a Tailândia, Índia, Costa Rica, Coreia do Sul e Cingapura. Houve entre a delegação o consenso de que Pernambuco poderia estar inserido neste contexto, em virtude da qualidade do polo de saúde instalado, custo competitivo em relação ao mercado internacional e boa acessibilidade aérea.

Poucos meses após a Empetur organizou a vinda ao Recife do presidente e do CEO da Associação Americana de Turismo, que palestraram para 50 representantes do trade em um dia de workshop. Eles fizeram uma avaliação geral positiva do polo médico-hospitalar recifense, destacando o fato de contarmos com hospitais de referência para a região, a presença de empresas de homecare, uma sociedade médica organizada, hospitais buscando acreditação e a oferta de equipamentos e exames sofisticados. Na análise observaram também que tínhamos destinos turisticamente competitivos, como Recife/Olinda e Porto de Galinhas, e infraestrutura adequada para atender ao mercado em questão com um aeroporto moderno integrado à cidade, hotelaria de bem-estar e spas integrados à rede hoteleira.

Em 2010 aconteceu mais um capítulo no caminho para assegurar a viabilidade. Uma missão pernambucana visitou em São Paulo hospitais que contavam com departamentos de relações internacionais, como Osvaldo Cruz, Hcor e Einstein, que hoje tem 5% do seu volume de internamento proveniente de pacientes internacionais. No mesmo ano, uma delegação da Terra dos Altos Coqueiros voltou à capital paulista para participar do Medical Travel Meeting Brazil, primeiro evento voltado para o tema no nosso país. Nele, Pernambuco era o único Estado brasileiro com um estande, à exceção dos anfitriões, e Alberto Cherpak foi um dos palestrantes. No evento, o principal conferencista era o tailandês naturalizado americano Ruben Toral, ex-diretor de marketing do Hospital Bumrungrad, localizado em Bangcoc, na Tailândia, considerado o principal hospital de referência em turismo de saúde no mundo, que recebe por ano 450 mil turistas internacionais.

Pouco depois, Toral, que é CEO da Mednet Asia e presidente da International Medical Travel Association (IMTA), desembarcava no Aeroporto Gilberto Freyre e perguntava: “O que Pernambuco pode ser para esse mercado?” Depois de entender um pouco do destino, ele próprio disparou: “Um destino com excelente custo-benefício porque se propõe a oferecer qualidade a preços competitivos para o turista de saúde”.

No mundo as especialidades mais demandadas pelo turismo de saúde são plástica estética, cardiovascular, ortopedia, bariátrica, oncologia e odontologia.

Na sequência dos acontecimentos, aconteceria uma nova edição do Congresso de Turismo Médico, em Los Angeles, e nosso Estado enviou uma segunda missão para o megaevento, que foi liderada pelo então secretário de Saúde de Pernambuco, Frederico Amâncio, e contou com a presença de nomes como o reconhecido médico Edmundo Ferraz; Gabriela Meira, executiva que representou a Interne Homecare; Luíza Santos, nomeada gestora de relações internacionais do Real Hospital Português; Daniela Alecrim, diretora da Empresa Pernambucana de Turismo; e, mais uma vez, Alberto Cherpak, presidente do Comitê de Saúde da Amcham.

Além do evento, a delegação esteve em Houston visitando hospitais que recebem grande contingente de pacientes internacionais por terem se tornado referência mundial em suas especialidades, como o MD Anderson Cancer Center, o Texas Heart Institute e o The Methodist Hospital. Lá também visitaram o Texas Medical Center, onde entenderam o passo a passo para fomentar o turismo de saúde. A entidade americana atua filiando os hospitais de Houston (a quarta cidade mais populosa dos EUA) e promovendo ações de atração e funcionalidade logística para atrair pacientes internacionais, negociando desde as tarifas nos hotéis, passando por serviços como trânsfer e tradução e chegando ao acompanhamento dos pacientes, que dispõem de uma sala exclusiva no aeroporto internacional da cidade.

Muitos desafios

Depois desse conjunto de ações, algumas conclusões foram extraídas. Um aspecto positivo dessa alternativa econômica é a convergência dos interesses públicos e privados. O mercado de turismo de saúde se estruturou em cima de números objetivos. Quem viaja para realizar uma intervenção médica, além de não fazê-lo sozinho, passa comprovadamente mais tempo no destino escolhido do que apenas um fim de semana. Estima-se que, para cada dólar gasto no atendimento médico, outros US$ 8 são desembolsados para outros atrativos disponibilizados.

Feitas as contas, agora se torna necessário que a iniciativa privada recifense defina os produtos que serão ofertados. Para que isso aconteça, as clínicas, hospitais e médicos precisam primeiro selecionar os procedimentos percebidos como de referência e custo competitivo. Entenda-se produto como um procedimento realizado por uma equipe médica numa instituição de saúde específica e um valor fixo definido. Bom lembrar que ninguém sairá do país de origem com incertezas financeiras e assistenciais.

“Essa etapa de pesquisa foi importantíssima e deixa claro que podemos participar com competência desse cenário. Sem percorrer esse caminho não poderíamos avançar”, reconhece Alberto Cherpak da Amcham

Assim, é necessário montar os produtos, estabelecer preços e divulgar. Aí mora um problema, um paradigma, pode-se dizer. Em Pernambuco ninguém divulga o preço por razões concorrenciais e pressão das operadoras de saúde sobre os fornecedores dos serviços. Eles utilizam aqui o modelo de remuneração intitulado contas abertas, em que é precificado e cobrado item por item e não pacotes predefinidos de procedimentos. Portanto, os pacotes necessários à promoção das ofertas do turismo de saúde, inicialmente, não apresentam um formato conveniente aos prestadores de serviços médico-hospitalares porque podem potencializar riscos não controláveis que levem ao extrapolamento dos recursos previstos, o que, em volume, afetaria diretamente a rentabilidade das instituições.

Outro dificultador para motivar as clínicas e hospitais para o turismo de saúde é o momento de expansão do setor de saúde, que acontece em padrões chineses, cerca de 10% ao ano, segundo o Sindhospe, e ampliou o volume de usuários dos serviços em Pernambuco com a chegada de muitas pessoas e a ascensão econômica de outras. Isso turbinou o número de entrantes no sistema de saúde suplementar (atualmente em 1,2 milhão de usuários em Pernambuco), elevando substancialmente a taxa de ocupação dos leitos disponíveis o que diminui momentaneamente a atratividade para captar pacientes internacionais.

Um desafio adicional fundamental nessa corrida é envolver a classe médica e suas entidades na discussão para que se esclareça a conjuntura discutida que não pretende alterar o foco da relação médico-paciente nem o nível de segurança dele, que continuará em primeiro lugar. É necessário também desmistificar o termo “turismo de saúde”, que pode ser mal compreendido pelo médico, sugerindo a banalização do procedimento de saúde com a mudança de foco para as atividades de lazer acopladas à intervenção ou ao tratamento.

Entretanto, nessa balança existem atenuantes que equilibram a análise. As seguradoras internacionais já disponibilizam seguros para intercorrências médicas, que agem garantindo o risco da cobertura do pacote de procedimentos adquirido pelo paciente no caso de ele extrapolar. Outra variante que precisa ser computada é a ampliação, em curso, do número de leitos em muitos hospitais do Recife, que vivem uma realidade expansionista.

Já existe em Pernambuco uma demanda não estruturada de pacientes internacionais na odontologia, cirurgia estética e cardiovascular. Em 2010, o volume de turistas que desembarcaram no Aeroporto Internacional Gilberto Freyre alegando motivações de saúde foi de 7,68%.

No mercado internacional Pernambuco deverá se organizar para competir com a Colômbia, Costa Rica, México e Argentina; por isso deve-se comparar custos e montar as ofertas observando essas localidades.

É importante lembrar que esses hospitais não precisariam inicialmente oferecer leitos específicos para os pacientes oriundos do turismo de saúde, precisando apenas disponibilizar um pacote desenvolvido para uma especialidade de referência.

A busca dos hospitais pernambucanos pelo certificado de acreditação hospitalar também deve ser registrada e tem pelo menos duas facetas a serem observadas. De um lado, a busca pelo aperfeiçoamento dos processos e o aumento da segurança dos pacientes, o que sinalizaria positivamente para um aumento na confiança dos turistas de saúde oriundos de outros países. Do outro, um interesse doméstico e legítimo em aumentar a remuneração das operadoras de saúde por procedimento realizado, que ocorre quando os hospitais adotam boas práticas que asseguram a redução de índices como infecção hospitalar, óbito por internação, reinternação e taxa de permanência, como consequência de uma rotina operacional mais bem estruturada.

Alberto Cherpak acredita que o momento atual é de dilatar o diálogo sobre o assunto, estimulando o contato entre os players. “Não adianta cada interessado nesse mercado tentar se inserir de maneira isolada”, alerta o presidente do Comitê de Saúde da Câmara Americana. Ele defende que a ação de Pernambuco seja construída com diversos produtos, oferecidos de maneira discutida e planejada e distribuídos por clínicas e hospitais. Cherpak avisa que não adianta os hospitais disputarem a liderança na mente dos pacientes dizendo que são bons em tudo. “É preciso agora estruturar o diálogo para formar um pensamento coletivo”, complementa.

Luciana Fernandes, da Empetur, que apostou suas fichas na atração deste mercado desde o início, está confiante no panorama que será traçado pelo tailandês Toral, recentemente contratado pela Secretaria de Turismo de Pernambuco para fornecer um diagnóstico aprofundado sobre nosso estágio, numa consultoria que custará US$ 15 mil dólares e que terá seus resultados apresentados num fórum que acontecerá até o mês de setembro. “Estou animada porque essa bandeira foi levantada pelo secretário Alberto Feitosa, que a posiciona como uma prioridade da pasta”, comemora Fernandes.

Debaixo de toda a discussão, é preciso lembrar que a prática de sair de uma cidade para se tratar em outra com melhores condições estruturais é antiga e comum. O turismo de saúde movimenta hoje US$ 60 bilhões e possibilita pensarmos de maneira objetiva na inversão do fluxo migratório, que até pouco tempo catapultava os pernambucanos de classe média alta para outros centros de saúde no Brasil e no mundo. Será muito bom para Pernambuco, mas ainda vai levar um tempo para virar realidade.

“O fato de Pernambuco ter começado esse esforço de maneira integrada reunindo a iniciativa privada, entidades de fomento e o poder público é um diferencial para avançarmos neste caminho”, acredita a diretora comercial da Empetur, Luciana Fernandes

 

 

 

 

 

 

 

 

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